Fanny Bernard uma voz antivivisseccionista no séc. XIX

em 1 janeiro, 2011


Artigo de Laerte Fernando Levai.

Nascida em 1819, em Paris, Marie-Françoise Martin – chamada afetuosamente de Fanny – era filha do médico Henri Martin e de Anna-Antonette Hezette. Ao se casar com o fisiologista Claude Bernard, em 1845 (o mesmo ano da fundação da primeira sociedade protetora de animais da França, a SPA), ela incorporou o sobrenome do marido, substituindo Martin por Bernard. Dessa união – que teria sido de conveniência,  segundo o romancista português Fernando Namora [1] – nasceram quatro filhos: Jeanne-Henriette, Marie-Louise, Louis-Henri e Claude-Henri, tendo os meninos morrido ainda pequenos. Sabe-se que Fanny gostava de animais, sobretudo cães, postura esta que lhe indispôs contra o esposo, cujos procedimentos vivisseccionistas difundiam-se pela Europa, tornando-se referenciais no meio científico. Naquele tempo, aliás, o animal mais utilizado nas práticas invasivas era o cão, proveniente dos canis públicos ou dos depósitos de animais errantes capturados nas ruas de Paris.

Os estudos de fisiologia, no afã de investigar e compreender o fenômeno da vida, tinham como pressuposto o fato de que para se conhecer o organismo era necessário invadi-lo, lesioná-lo, seccioná-lo e dissecá-lo. Galeno (129-210), em Roma – conforme ponderam Sérgio Greif e Thales Tréz – teria sido o pioneiro nas vivissecções em animais [2], mediante experiências perturbadoras em macacos e porcos, para analisar, por exemplo, os efeitos da perfuração do peito no organismo vivo, as conseqüências da secção dos nervos ligados aos músculos intercostais, o corte das artérias e o mecanismo da deglutição. Depois dele vieram Servet, Harvey, Aselli, Pecquet, Haller, dentre outros tantos, cuja técnica invasiva foi corroborada pelo método de Descartes, consubstanciado, em termos vivisseccionistas, na controvertida teoria bête-machine.

Importa lembrar que desde 1831, em Paris, o professor François Magendie – que lecionava no renomado Colégio de França – já dizia que a fisiologia necessitava de uma nova personalidade, esforçando-se para fazer da experimentação animal a metodologia padrão da medicina. Tal pensamento obtuso acenava para matança oficial de milhares de animais: cães, coelhos, porcos, rãs, macacos, cavalos, etc. E foi justamente Magendie que acolheu Claude Bernard como discípulo, incentivando-o aos estudos de fisiologia experimental. Em 1843, após a publicação de seu primeiro trabalho vivisseccionista (“Investigações Anatômicas e Fisiológicas sobre a Corda do Tímpano“), Claude Bernard obtêm doutoramento em Medicina e Ciências defendendo tese construída, igualmente, com base na experimentação animal (“O suco gástrico e o seu papel na nutrição“). Passados doze anos, ele assume a titularidade da cátedra de Medicina Experimental, para então doutrinar seus alunos pelo método cartesiano.

Fernando Namora, no elogio literário que faz a Claude Bernard, confirma que no século XIX o cão era, de fato, o modelo experimental preferido dos cientistas:

Claude Bernard tinha de realizar as suas experiências sob dificuldades, censuras e desconfianças, pois não podia esconder da repulsa dos leigos as práticas de vivissecção consideradas desumanas. Ao analisar as propriedades do suco gástrico, recolhera-o com uma sonda adaptada ao estômago de cães vivos, cobaias prediletas da fisiologia…[3]

Torna-se evidente que Fanny Bernard toma conhecimento das experiências macabras que seu marido, em nome da “deusa-ciência”, realizava nos laboratórios. Alguns desses procedimentos foram descritos pelo próprio Claude Bernard em sua obra clássica, “Introdução à Medicina Experimental“, publicada em 1865. Nela o autor, seguindo à risca a cartilha cartesiana, refere-se aos animais como “corpos brutos”, “máquinas” ou “matéria viva”, suscetíveis, portanto, de invasão corporal. No capítulo II, Considerações Experimentais Especiais aos Seres Vivos, tópico III, Da Vivissecção, pode-se ler a seguinte afirmação:

Só podemos descobrir as leis da matéria bruta, penetrando nos corpos ou nas máquinas inertes; e, igualmente, só podemos conhecer as leis e propriedades da coisa viva, separando os organismos vivos para nos introduzirmos em seu interior (…) O princípio científico da vivissecção é fácil de apreender. Trata-se, sempre, de separar ou modificar certas partes da máquina viva, a fim de estudar e de assim compreender o seu emprego e utilidade. [4]

Ao questionar, ainda neste capítulo, se temos ou não o direito de realizar experiências e vivissecções nos animais, o próprio Claude Bernard responde:

Penso que possuímos tal direito de forma indubitável e completa. Seria bem estranho, com efeito, que se reconhecesse que o homem pode servir-se dos animais para todas as necessidades da vida, para os serviços domésticos, para a alimentação, e que lhe proibissem servir-se deles para se instruir em uma das ciências mais úteis à humanidade. (…) Não admito que seja moral ensaiar nos doentes dos hospitais remédios mais ou menos perigosos ou ativos, sem que os tenham anteriormente experimentado em cães. [5]

E prosseguindo nesse raciocínio, o autor critica aqueles – como a sua própria esposa – que se opunham aos experimentos em animais:

Depois de tudo isto, seria lícito deixarmo-nos comover pelos gritos de sensibilidade que podem soltar as outras pessoas, ou por objeções feitas por homens estranhos às idéias científicas? (…) Compreendo perfeitamente que as pessoas vulgares, movidas por idéias completamente diferentes das que animam o fisiologista, encarem as vivissecções com um espírito diferente. [6]

A conclusão de Claude Bernard, na obra que passou a ser vulgarmente denominada “A Bíblia da vivissecção”, é estarrecedora:

O fisiologista não é um homem do mundo, é um sábio, um homem que se encontra preso e absorvido por uma idéia científica que persegue: não ouve os gritos dos animais, não vê o sangue que se alastra. Só vê a idéia, só observa os organismos que lhe escondem problemas que quer descobrir. [7]

Pouco tempo depois da publicação desse livro, cujo capítulo I da Terceira Parte traz exemplos detalhados de procedimentos de investigação experimental fisiológica realizada em animais, o casal Bernard se separa de fato, oficializando-se o rompimento conjugal em 22 de agosto de 1870. Um ano antes Fanny saiu de casa levando consigo as duas filhas. Analisando tais fatos na obra “Deuses e Demônios da Medicina”, Fernando Namora – que também foi médico – assume a defesa de Claude Bernard, atribuindo à mulher a responsabilidade pela desunião da família:

Gradualmente, Claude Bernard foi se sentindo um estranho entre os seus, passando a maioria das horas no laboratório. A mulher, tirânica, incapaz de o compreender e amar, impondo ao clã uma religião asfixiante de temores e superstições, acusava-o de ateísmo, de barbaria, pois supliciava os animais sem hesitação ou remorso…”.[8]

Com o devido respeito à interpretação do ilustre escritor português, os dados históricos demonstram que Fanny Bernard foi uma mulher de princípios, que em pleno século XIX teve a coragem de renunciar ao casamento a fim de resguardar a sua dignidade e também para preservar as filhas, evitando a convivência com um homem que se distinguia à custa de imensurável dor e sofrimento impingidos aos animais. Ela, que tanto amava os cães, não suportava a idéia de vê-los torturados todos os dias, ainda que o marido, para se justificar, invocasse suas prerrogativas científicas e a alegada relevância social da função que desempenhava.

O mais interessante disso tudo é que Fanny Bernard não se limitou a afastar-se do esposo. Segundo José Roberto Goldim e Marcia Mocellin Raymundo, co-autores do artigo “Aspectos Históricos da Pesquisa com Animais”, ela passou a militar em associações de defesa dos animais:

Um importante episódio para o estabelecimento de limites à utilização de animais em experimentação e ensino foi o que envolveu a esposa e a filha de Claude Bernard. O grande fisiologista utilizou, ao redor de 1860, o cachorro de estimação da sua filha para dar aula aos seus alunos. Em resposta a este ato, a sua esposa fundou a primeira associação para a defesa dos animais de laboratório. [9]

Tal associação, criada em 1883, teria sido – ao que parece – a Sociedade Francesa Antivivisseccionista, que se destinava à acolhida de animais abandonados. Tagore Trajano de Almeida Silva, estudioso do tema, observa que Marie-Françoise Martin foi uma das primeiras mulheres a criticar a forma odiosa pela qual se tratavam os animais[10]. De fato, a coragem demonstrada por ela, Fanny Bernard, longe de apenas renunciar ao seu casamento com uma das personalidades mais prestigiadas do meio científico europeu, redundou em uma atitude política capaz de reivindicar publicamente direitos aos animais, contribuindo, assim, para a difusão de um ativismo que se firmaria apenas no século seguinte, com a difusão do movimento animalista. Por ironia do destino, um dos primeiros passos neste sentido foi dado justamente pela mulher daquele que se tornou o maior vivissector da história.

Fanny Bernard morreu em 9 de janeiro de 1901, aos 82 anos. Já é tempo, um século depois, de resgatar a memória dessa mulher que, por conhecer tão de perto os horrores das práticas experimentais cometidas pelo célebre marido, tornou-se uma das vozes pioneiras na luta contra a vivissecção.

Laerte Fernando Levai, promotor de Justiça em São Paulo.

Referências bibliográficas

BERNARD, Claude. Introdução à Medicina Experimental. Trad. Maria José Marinho. Lisboa: Guimarães e Cia Editores, 1978.

GOLDIM, José Roberto; RAYMUNDO, Marcia Mocellin. Pesquisa em Saúde e os Direitos dos Animais. 2ª ed. Porto Alegre: HCPA, 1997.

GREIF, Sérgio. TRÉZ, Thales. A Verdadeira Face da Experimentação Animal: a sua saúde em perigo. Rio de Janeiro: Sociedade Educacional Fala Bicho, 2000.

NAMORA, Fernando. Deuses e Demônios da Medicina. 2º vol. 7ª ed. Portugal: Publicações Europa-América, 1989.

SILVA, Tagore Trajano de Almeida. Crítica à herança mecanicista de utilização animal: em busca de métodos alternativos. Disponível em: http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/salvador/tagore_trajano_de_almeida_silva.pdf. Acesso em 08 dez.2010.

Notas

[1] NAMORA, Fernando. Deuses e Demônios da Medicina. 7ª ed., 2º vol, Portugal: Publicações Europa-América, 1989, p. 71.

[2] GREIF, SÉRGIO. TRÉZ, Thales. A Verdadeira Face da Experimentação Animal: a sua saúde em perigo. Rio de Janeiro: Sociedade Educacional Fala Bicho, 2000, p. 20.

[3] Ibid, p. 55.

[4] BERNARD, Claude. Introdução à Medicina Experimental. Trad. Maria José Marinho. Lisboa: Guimarães e Cia. Editores, 1978, p. 125.

[5] Ibid., p. 128.

[6] Ibid, p. 129.

[7] Ibid, 129.

[8] NAMORA, Fernando, p. 72.

[9] GOLDIM, Jose Roberto; RAYMUNDO, Marcia Mocellin. Pesquisa em Saúde e os Direitos dos Animais. 2 ed. Porto Alegre: HCPA, 1997.

[10] SILVA, Tagore Trajano de Almeida. Crítica à herança mecanicista de utilização animal: em busca de métodos alternativos. Disponível em: http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/salvador/tagore_trajano_de_almeida_silva.pdf. Acesso em 08 dez.2010.

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1 Comentário

  1. Cristina Ribeiro, 1 ano atrás

    Gostaria que existissem mais promotores com a sensibilidade do Dr. Laerte Levai. Seus textos são ricos em informação e poesia. Somos gratos pelo seu trabalho na defesa dos direitos dos animais.


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