Brasil em chamas

em 3 setembro, 2010


Artigo de José Renato Nalini.

Este 2010 viu crescerem de forma avassaladora os focos de incêndio em todo o País. É verdade que a seca é fator agravante da situação. Os índices de umidade abaixo de 20% propiciam o surgimento de incêndios provindos de combustão natural. Esse fenômeno já suscitaria reflexões quanto aos malefícios perpetrados pelos homens à natureza. Por que se amplia a desertificação? Por que o regime pluviométrico já não é o rotineiro e o esperado para a atual estação?

Mas essa é apenas uma parte da realidade. A mídia noticiou que cientistas insuspeitos constataram o início criminoso do fogo. Este começou ao lado de estradas, de rodovias, de lugares frequentados pelo homem. Indaga-se: a quem servirá a extinção da cobertura vegetal?

O retrocesso constatado no tratamento que o Brasil dispensa ao meio ambiente não reside apenas na principiologia proclamada na Eco-92. A leniência do Poder Público, o descaso geral reforçado pela exitosa tentativa de se mutilar e se descaracterizar o Código Florestal, tudo vai na mesma linha de desprezar o que o constituinte afirmou em 1988. Uma tutela efetiva sobre a natureza, meio ambiente elevado à categoria de bem de uso comum de todos, essencial à sadia qualidade de vida. Bem confiado ao zelo dos viventes, não apenas para propiciar saudável existência para as atuais, como – principalmente – para autorizar que sobrevivam as gerações do porvir.

O fogo acaba com a mata – ou com o cerrado – mas elimina a biodiversidade e a fauna silvestre. Isso está acontecendo em todas as regiões. Mesmo em zonas conurbadas, onde restam fragmentos de vegetação, os incêndios proliferam. As últimas onças, lobos, derradeiros espécimes da riquíssima primitiva fauna brasílica não têm mais onde se esconder. São apreendidos nos quintais e assustam crianças que nunca viram um animal a não ser o frango congelado.

Aviões não conseguem aterrissar ou decolar em aeroportos situados em áreas de queimada. E ainda existe quem defenda a limpeza da palha de cana-de-açúcar com aposição do fogo. Talvez venham a merecer, num futuro imprevisível, o calor daquele lugar cujo cão de guarda se chama Cérbero.

José Renato Nalini, desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium.

 

(As opiniões dos artigos publicados no site Observatório Eco são de responsabilidade de seus autores.)

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1 Comentário

  1. marlene fujii, 1 ano atrás

    infelizmente o descaso esta em todas as camadas sociais,pois não acreditam que ,de todos nos depende um ambiente saudavel, poucos tem a visão do senhor. Se as autoridades fazem vistas grossas querendo culpar os menos informados, esquecendo que, os que detêm o PODER, nada fazem. E vamos vivendo o caos, enquanto não tivermos um numero bem maior de criaturas que percebam, o que estamos causando à natureza, é so esperar a catástrofe…


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