Mais uma monumental hipocrisia

em 3 agosto, 2010


Artigo de Ana Echevenguá.

“O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes”. Noam Chomsky

Atenção, muita ateeeenção! A Assembléia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas – aprovou uma Resolução que diz que tanto o acesso à água potável como o acesso aos cuidados básicos de saúde são direitos humanos fundamentais.

Não é piada: to falando sério! Colocaram o óbvio no papel: se, sem beber água, você morre em 3 dias, o acesso à água é um direito vital.  Isso vai ficar catalogado na História dos Povos: um fato que ocorreu no Século XXI, após a Copa do Mundo de 2010.

Nossa!, quem fica sabendo disso – principalmente através da  imprensa – pensa que se trata de uma conquista magnânima! Coisa pra ser comemorada nos quatros cantos do Planeta.

Mas, segure as vuvuzelas, gente! A ONU fez mais um texto bonitinho, com o amém de 122 países. Estados Unidos, Austrália, Áustria, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Israel, Japão, Luxemburgo e Suécia ficaram em silêncio; não votaram. Mas, também, o voto positivo deles não ia mudar nada.

A humanidade ganhou mais um papel pra colocar na gaveta (ou no arquivo virtual). E pra gerar reuniões, eventos, discussões calorosas…

Lembrei agora que, na Rio+10, realizada na África do Sul, 190 países prometeram reduzir à metade, até 2015, a população sem água potável e sem saneamento; e a restaurarem os recursos pesqueiros. No mesmo ano, em 27 de novembro de 2002, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU declarou que o acesso à água era um direito humano indispensável; que a água era um bem público, social e cultural, um produto fundamental para a vida e a saúde e não um produto básico de caráter econômico. E exigiu que os países adotassem planos de ação nacionais para garantia desse direito. Mas isso não foi uma Resolução; foi um “Comentário Geral”, ou seja, uma interpretação das disposições do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais2.

Nem Comentário Geral, nem Resolução vão ajudar a reduzir esses números… Regras como estas não obrigam ninguém a fazer nada: apenas pedem, sugerem, dão palpites… se não cumprir, fica tudo bem; não há castigo previsto em caso de descumprimento.

E qual a nossa realidade, segundo dados da ONU? 900 milhões de terráqueos vivem sem água boa de beber. E a água poluída mata, principalmente nos países pobres.

Enquanto a ONU brinca de criar regras, nossas crianças estão morrendo: a cada 3 segundos, morre uma criança de doença veiculada pela água poluída (dados da OMS – Organização Mundial da Saúde).

Isso não cabe debaixo do tapete! Vamos festejar o quê????

Ana Echevenguá, advogada ambientalista, coordenadora do programa Eco&Ação, presidente da ONG Ambiental Acqua Bios e da Academia Livre das Águas.

(As opiniões dos artigos publicados no site Observatório Eco são de responsabilidade de seus autores.)

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4 Comentarios

  1. Eldis Camargo, 1 ano atrás

    Ana bom dia

    Partindo de sua constatação (bem real por sinal) qual seria o caminho?
    abraço
    Eldis

  2. christian guy caubet, 1 ano atrás

    Gostei de constatar que o comentário da Ana Echevenguá chegou, dentre os primeiros, para comentar sarcasticamente a nova Resolução da ONU, a que cria um novo “direito a…”. À água e ao saneamento básico, desta vez. Veja bem, ninguém falou em “garantia da água” para todos, a começar pelos que não têm água. Só “direito à água”. A guardar na mesma estante que os demais “Direitos a”: saúde, trabalho, integridade física, palavra, opinião, igualdade, não discriminação de espécie alguma etc… Se alguém perguntar: “Quem garante que essas emocionantes palavras surtam algum efeito nas relações entre os seres humanos?”, a resposta será: o MP estadual? o Federal? A Secretaria Especial da Presidência da República para os DH? A FIESP (tem compromisso social)? o Governo estadual? O Federal?
    Fazer perguntas, muitas vezes, é levar a crítica diretamente para o miolo do assunto. O assunto que ficou encoberto pela votação 121 a 42 da Resolução da ONU. Interessante, é ler as declarações de votos dos representantes dos países que se abstiveram de votar. Esses não tiveram dúvida: se houvesse qualquer possibilidade de “a Humanidade” receber um “direito a água” verdadeiro, não seria com seu voto que ela chegaria mais perto do objetivo! É só ler.
    prof. Christian Guy Caubet

  3. Isaac Ruben Teitelbaum, 1 ano atrás

    Ana,isso me lembra que quando fiz minha casa em Itu, em um condominio de clase media alta,rsrs….no meio da obra faltou agua,era novo na cidade e não sabia que era normal,na epoca de seca,por causa que uma geração de administraores da cidade nunca construiu reservatorios suficientes.
    Entre as ideias que fui acumulando na vida com respeito ao dia em fizese minha casa,fazer colheita de agua de chuva era uma delas,a falta de agua na obra abriu esse oportunidade e fiz,hoje tenho em media 15000 litros de agua na cisterna, e gasto o minimo que a compania cobra pela agua supostamente potavel.
    O engraçado e que teu artigo sobre o direito a agua que a ONU votou me fez lembrar o dia que apareceu um funcionario da compania de Aguas de Itu me comunicando que era ilegal captar agua de chuva, que tinha que consumir a agua deles e gastar mais claro.
    Não por acaso o nosso atual presidente quer ser o sucessor de Ban-Ki-Moon na secretaria das Nações Unidas
    Cordialmente,…
    Isaac

  4. amarildo porto araujo, 1 ano atrás

    e nos que moramos no [ paraiso ] com 2.58 % de coleta de esgoto, [PARAISO ] este que comentan por todo o maior rio do mundo, que navios de bandeiras estrangeiras, estao a nos roubar a nossa maior riqueza a agua doce do rio amazonas, tem + trazen tanbem os + de 800 navios cheios de aqua de lastro por ano, e adentran o maior rio do mundo, com as especies exoticas, trazidas nos poroes de navios, que logo logo, mataran as nossas especies nativas, e ninquen faz nada, a fazen sim, como aquela lei [ BURRA ] instruçao normativa n- 06 do mma de 16/12/ 2006, que faz com que toda extraçao, madeireira, produçao de carvao vegetal, agricultura sendo ela de subsistencia ou agronegossio, trabalhe irregular ou na clandestinidade. lutamos junto a diverssos ministerios, 06 federaçoes de trab/ e trabalhadoras de 6 estados alguns senadores e dep- federais e nada, e nimquen fez nada, mas sair do [BR ] p/ criar legislaçao em outros paises e inclusive meter a colher a onde nao foi chamado o [ BR ] ER BOM. mcp /ap, 05/08/ 2010 ás 23:03


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