Remunerar a natureza

em 23 fevereiro, 2010


Artigo de José Renato Nalini.

 

Fomos treinados a conceber este frágil planeta como supermercado gratuito, do qual tudo se tira e nada se repõe. Achamos que tudo é de graça: ar, água, terra, vegetação e criaturas animadas. Daí o costume perdulário de se caçar, de se pescar, de se queimar o “mato”, de se derrubar árvores. Tudo impunemente.

 

Resquício dessa irresponsabilidade é o adulto que passa pelas ruas e, descuidadamente, quebra um galho da muda recém-plantada. O lixo que se arremessa aos cursos d’água, como se fora um coletor em movimento da sujeira que produzimos de forma incessante.

 

Mas os dias de descompromisso já passaram. A Terra emite sinais significativos de que atingiu estágio de exaustão próximo ao colapso. A parca lucidez reagiu. Já notaram como a ignorância grassa, predomina e se espalha e a sabedoria encontra-se em extinção? Mesmo assim, é a elite do pensamento que faz a diferença. Para esta, a manutenção de áreas verdes é vital para os negócios. Só os desprovidos de antenas sensíveis ainda não perceberam isso. Mas pagarão pela cegueira. Não custa esperar.

 

Todo processo industrial demanda um serviço gratuito oferecido pela natureza. Já pensaram se tivéssemos de pagar pelo oxigênio que respiramos? (A continuar a emissão de substâncias poluentes, esse dia chegará; assim como chegou, quase desapercebidamente, a cobrança pela água…). A água é um bom exemplo. Quem é que pode prescindir dela?

 

Embora a passos de tartaruga, delineia-se a formulação de uma nova cultura ecológica. E com ela, a construção de um mercado para os serviços ambientais no Brasil. Iniciativas que todos os municípios deveriam seguir, pois a tutela ambiental é responsabilidade de todos. Não há exclusividade do governo, em qualquer de suas esferas, nem da sociedade, nem do indivíduo. TODOS são chamados a cuidar daquilo que é essencial para a sobrevivência de TODOS.

 

Um exemplo singelo, os programas de conservação de água que remuneram produtores rurais que cuidam das nascentes. Só no município de Extrema, em Minas Gerais, 50 agricultores recebem recursos da Prefeitura para manter as áreas verdes intocadas e, assim, garantir a produção de água. Por que não seguir o bom exemplo?

 

 

José Renato Nalini, desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium.

 

(As opiniões dos artigos publicados no site Observatório Eco são de responsabilidade de seus autores.)

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1 Comentário

  1. Maria Nanci da Costa, 1 ano atrás

    Durante milhares de anos o homem vem destruindo a natureza sem nenhum compromisso de sustentabilidade, não foi ensinado a ninguem durante esses milhares de anos que a natureza poderia ser destruída. A única saída é por meio da educação que ainda se pode salvar o que ainda resta nesse planeta.


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