País não precisa de um código ambiental, diz Fiorillo

em 11 agosto, 2009


O

 Poder Judiciário lida de forma satisfatória no segmento ambiental, os tribunais superiores, STF (Supremo Tribunal Federal), STJ (Superior Tribunal de Justiça) e o TST (Tribunal Superior do Trabalho) estão definindo posicionamentos importantes na área. Por outro lado, o Legislativo e o Executivo deixam a desejar nesse campo. A avaliação é do advogado e jurista Celso Antônio Pacheco Fiorillo que qualifica o Executivo de “ditatorial”.  

 

Formado em direito, pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), Fiorillo é o primeiro professor livre docente em Direito Ambiental no Brasil, com dezenas de obras publicadas, considera a Constituição Federal, a bíblia dos ambientalistas, e é categórico ao afirmar “o país não precisa de um código ambiental, pois 95% do que interessa na área ambiental está na Constituição Federal”.

 

Com mestrado e doutorado em relações sociais feitos na PUC-SP, atualmente, ele é assessor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e professor efetivo da Escola de Magistratura do Tribunal Regional Federal paulista, da 3ª Região, para o jurista, o direito ambiental deve ser interpretado em prol da pessoa.      

 

Celso Fiorillo já orientou mais de 200 mestres e doutores pelo país, e defende que “para fazer trabalho acadêmico no Brasil tem que pensar como brasileiro” e afastar visão eurocêntrica. Ele explica que sempre orientou no sentido de se fazer pesquisas de utilidade para o país, que “ainda tem muita dificuldade, 40 milhões de pessoas vivem com a quantia do “Fome Zero”, somos extremamente atrasados em saneamento ambiental. Se cada um pensar o seu país, se resolvem coisas importantes para o mundo”.  Veja a entrevista que Celso Antônio Pacheco Fiorillo concedeu ao Observatório Eco com exclusividade.

 

 

u    Observatório Eco: Falta no país segurança jurídica na área ambiental para o desenvolvimento sustentável?

 

Celso Fiorillo: Não, não falta. Tanto o STF (Supremo Tribunal Federal), como o STJ (Superior Tribunal de Justiça) e mesmo o TST (Tribunal Superior do Trabalho), em matéria de meio ambiente do trabalho, aos poucos, estão definindo uma série de questões na área ambiental e, portanto estabelecendo uma regra que vale para todos. Não concordo que falte segurança jurídica na área porque está melhorando muito. 

 

u    Observatório Eco: Nesse período em que o senhor se dedica ao direito ambiental, o que melhorou no país?

 

Celso Fiorillo: Melhorou tudo. Em primeiro lugar, o aparecimento do STJ (Superior Tribunal de Justiça), em 1988 vem aos poucos consolidando a interpretação de leis vinculadas ao direito ambiental. Há uma série de avanços importantes.

 

O próprio STF (Supremo Tribunal Federal), nesses anos, vem apontando uma série de caminhos relevantes para definir temas ambientais. Da mesma forma, o TST, os tribunais regionais federais, e tribunais de justiça estão indicando alternativas importantes no plano local.

 

u    Observatório Eco: Então, o Judiciário vem lidando de forma satisfatória com as causas ambientais?

 

Celso Fiorillo: Não só vem lidando de forma satisfatória, como é o único dos poderes que lida de forma satisfatória. Ao contrário do Executivo e do Legislativo que vão muito mal na área ambiental. O Legislativo, a gente vem notando, não legisla. O Executivo vem atuando de uma maneira totalmente arbitrária, até ditatorial. É graças ao poder Judiciário que o país vem conseguindo adotar na área do direito, o que chamamos de desenvolvimento sustentável.

 

É o Judiciário que vem corrigindo, graças a iniciativa dos advogados, dos ministérios públicos federal e estaduais. Então, numa análise crítica dos poderes constituídos, o Judiciário vem avançando e muito.

 

u    Observatório Eco: Com relação à polêmica do Código Florestal, precisa de reforma? O senhor é a favor da reforma?

 

Celso Fiorillo: O Código Florestal foi editado há muitos anos, dentro de uma realidade que não existe mais no Brasil. Inclusive se você me perguntar se precisamos de código ambiental. A resposta é não. O país não precisa de um código ambiental, pois 95% do que interessa na área ambiental está na Constituição Federal. Assim, qualquer outra regra infraconstitucional, incluindo o código é de pouca importância. É muito barulho por nada.

 

u    Observatório Eco: Existe um projeto de lei que quer retirar da Constituição Federal o artigo 225, que trata de Meio Ambiente. Qual sua opinião?

 

Celso Fiorillo: Esse projeto de lei é lamentável. Inclusive as seccionais da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Ceará, Maranhão, vão se reunir, para tomar uma posição unificada contra esse projeto.

 

O artigo 225, antes de ser uma questão ambiental, aponta um avanço fundamental para a dignidade da pessoa humana. Integra o patrimônio cultural de todos nós. 

 

u    Observatório Eco: Há também na Câmara um projeto para mudar a lei de ação civil pública, qual sua opinião?

 

Celso Fiorillo: É uma idéia interessante, embora não se constitua nenhuma novidade. O novo código de processo coletivo vai reunir, de forma aglutinada, as regras constitucionais e processuais. Não há novidade no projeto, apenas vamos estabelecer um texto uniforme para os processos coletivos.

 

u    Observatório Eco: Algumas discussões afirmam que nesse projeto a tutela do meio ambiente está sendo tratada juntamente com outros direitos, como saúde, consumidor. A tutela do meio ambiente merecia uma lei própria, para a tramitação de causas relacionadas ao tema na Justiça.

 

Celso Fiorillo: Na verdade o projeto não traz novidades. A maioria da população ainda tem uma visão de bem ambiental, única e exclusivamente na perspectiva, que doutrinariamente chamamos de meio ambiente natural.

 

Desde 1988, os bens ambientais são divididos entre patrimônio genético, meio ambiente cultural, artificial, do trabalho e natural. A lei apenas estabelece de forma didática, aquilo que já sabemos desde 88.

 

u    Observatório Eco: Para o público, a imagem do Ministério Público está sempre associada a defesa do Meio Ambiente. Por outro lado, o advogado está ligado ao poluidor. Como lidar com essa imagem da advocacia?

 

Celso Fiorillo: É uma imagem maniqueísta, do bem e do mal. Parece filme de Guerra nas Estrelas, tem o lado negro da força e o lado do bem. O que ocorre é que naturalmente o Ministério Público é institucionalmente organizado para fazer a defesa dos direitos difusos e coletivos.

 

Há gente muito bem abalizada e treinada para tanto, naturalmente, atuando como legitimados ativos na defesa do meio ambiente. E claro, felizmente, na democracia, em toda e qualquer ação há o contraditório e a ampla defesa. E quem vai defender os empreendedores tecnicamente são os advogados. É um processo natural democrático.

 

Até porque se não fossem os empreendedores não haveria possibilidade de transformar os bens ambientais em produtos e serviços. E isso é desenvolvimento sustentável. Os bens ambientais são de uso comum da população, então a regra é estabelecer um diálogo entre os empreendedores e a sociedade como usar democraticamente e de maneira sustentável todos esses bens ambientais.

 

u    Observatório Eco: Três conselhos para a nova geração, que vai atuar na área ambiental seja como um advogado, promotor, ou mesmo gestor ambiental?

 

Celso Fiorillo: Antes de querer discutir temas de altas complexidades para salvar as futuras gerações, acho que todo estudante tem que arrumar o seu quarto, se organizar em casa, ter uma postura civilizada com os colegas. Não adianta falar de grandes questões, se não tiver uma postura de equilíbrio na própria vida.

 

O segundo conselho é estudar sempre, eternamente, o direito ambiental é dinâmico, atua fortemente em todos os pontos de vista de sociedade. Então precisa estudar para ver como o mundo caminha.

 

O terceiro aspecto é ser tolerante. O direito ambiental não se interpreta de maneira unilateral. Sempre tem o outro lado da moeda.  E felizmente, na democracia, existe um poder constituído que é o poder judiciário, que em última análise, na democracia, vai dar a palavra final.  

 

u    Observatório Eco: Para os alunos que desejam fazer a tese de mestrado e doutorado na área ambiental, qual o melhor caminho?

 

Celso Fiorillo: Em termos de defesa de teses, o mais importante é pensar o Brasil. Não tem cabimento raciocinar o direito ambiental com uma visão eurocêntrica, como alguns acham bonito e interessante. A realidade brasileira nada tem a Europa. Claro há uma série de pontos que a Humanidade deseja como um todo.

 

Mas para fazer trabalho acadêmico no Brasil, tem que pensar como brasileiro. Já orientei 200 mestres e doutores no país, e sempre procurei incentivar que se façam trabalhos de utilidade para o país. O Brasil ainda tem muita dificuldade, 40 milhões de pessoas vivem com a quantia do “Fome Zero”, somos extremamente atrasados em saneamento ambiental. Se cada um pensar o seu país, se resolvem coisas importantes para o mundo.

 

u    Observatório Eco: Amazônia, uso sustentável e conservação. Como conciliar esses dois princípios?

 

Celso Fiorillo: Respeitando a população, de 25 milhões de habitantes, que mora lá. Há muitos anos atuando na área e visitando o local em média 3 vezes por ano, percebo que existe uma visão européia, americana com relação à Amazônia, de um enorme zoológico. E na verdade, o que temos que observar é a dificuldade enorme das pessoas que moram na região norte da Amazônia legal.

 

Manaus, por exemplo, tem sérios problemas de infra-estrutura, a população que habita outras áreas tem sérios problemas de sobrevivência. O desenvolvimento sustentável na Amazônia é respeitar os direitos e interesses das pessoas que lá estão. Portanto, ouvir os colegas de lá, o judiciário, os promotores.

 

u    Observatório Eco: O que o senhor aprendeu de mais importante em direito ambiental?

 

Celso Fiorillo: Aprendi que o mais importante em direito ambiental é a dignidade da pessoa humana. Portanto, pensar direito ambiental no Brasil é entender esse conjunto de leis, regras e interações de toda ordem voltadas à necessidade da pessoa humana.

O grande avanço brasileiro é compreender que os temas na área ambiental, seja meio ambiente natural, cidades ou patrimônio cultural têm um grande personagem que se chama pessoa humana. E é para essa pessoa humana que se deve interpretar o direito ambiental.

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8 Comentarios

  1. Paulo Fonseca, 2 anos atrás

    Parabéns! o tema é de grande interesse e, precisa ser amplamente debatido pela sociedade. vamos prosseguir com o debate.

  2. Paulo Cesar Gonçalves, 2 anos atrás

    Para dar um exemplo de que lei não se cumpre e não se fiscaliza, cito um exemplo: No Brasil temos aproximadamente 35 milhoes de veículos circulando. Se cada veículo trocar o filtro de óleo duas vezes por ano (o ideal é a cada duas troca de óleo trocar o filtro), teremos anualmente 70 milhoes de filtros contaminados com lubrificantes e metais pesados. Cada filtro pode ter no mínimo 100 ml de óleo usado contaminado, totalizando anualmente, 7 milhoes de litros de óleo usado contaminado. Atualmente, esses filtros estão indo para aterro sanitário e para a siderurgia, o que é ilegal. Para uma simples troca de óleo de veículos, há a geração de embalagens com resto de óleo, panos e estopas com óleo, filtros automotivos, material de varrição do local.

    Trabalho em uma empresa que coleta, trata e destina residuos de postos de combustiveis, Transportadoras, Oficinas Mecânicas, Concessionárias Automotivas em todo o Brasil. São poucos os clientes da empresa pois quando é oferecido serviços dizem que somente destinarão corretamente quando “tiver alguma lei obrigando”.

    Quando se fala da geração desses resíduos, supoe-se que seja pouco volume. Considerando um posto de combustivel médio, a geração mensal de resíduos é de 100 kg. Temos no pais aproximadamente 28.000 postos de combustiveis (sem contar as oficinas mecanicas, transportadoras, supertroca de óleo), temos uma geração mensal de 2.800 toneladas de panos contaminados, filtros, embalagens, terra e material de varrição contaminados. Para o pais é um absurdo saber que em torno de 90% desse residuo está sendo destinado incorretamente prejudicando a natureza e as gerações futuras.

    Relato isso primeiramente como brasileiro preocupado pois tenho muitas estatisticas e sei que muitos brasileiros não tem nenhuma ideia sobre esses fatos, incluindo os órgãos publicos responsáveis por licenciar e fiscalizar essas atividades.

    Nosso pais, diferente de muitos, efetua muita manutenção de equipamentos e tem muitas oficinas de manutenção que são verdadeiros depósitos de lixo, muitas vezes perigosos.

  3. Roseli, 2 anos atrás

    OLá Paulo,

    Muito bacana o seu comentário. Inclusive na matéria 50 ideias verdes, uma das preocupações é que sejam feitas leis municipais obrigando a essa atitude de correta destinação do lixo tóxico não só dos postos, como também dos lava-rápidos.

    Roseli

  4. Ives Gandra Martins é contra a redução da Constituição « Observatório Eco, 2 anos atrás

    [...] Fiorillo destaca que o artigo 225, antes de ser uma questão ambiental, aponta um avanço fundamental para a dignidade da pessoa humana. Integra o patrimônio cultural de todos nós. (leia mais aqui). [...]

  5. Mario Perrucci, 2 anos atrás

    Nada como ter um doutrinador com visão antropocêntrica, ou seja, o homem em primeiro lugar. Meio ambiente acima de tudo é bem estar, de quem? Lógico, da pessoa humana aqui e agora, geração presente. Por exemplo, se retirarmos do art. 225 da CF a expressão “futuras gerações” e nos voltarmos para o art. 6o. da Constituição Federal que reza “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”, batizado pelo Professor Fiorillo como piso vital mínimo, sinônimo de bem estar, talvez o discurso se tornaria indigesto para os ecologistas de plantão e midiáticos, comparado com temas da importância de garrafas pet, sacolas de supermercado, tempo de decomposição de um chiclete ou de uma bituca de cigarro, derretimento na Antártida, camada de ozônio, aquecimento global, etc., como ficaria a grife “sustentabilidade”, o que fazer com ela? Realmente, a atenção à geração presente é o único caminho que leva ao respeito pela dignidade da pessoa humana, especialmente dentro de nossa realidade. Trata-se de um dos raros doutrinadores que priorizaram essa tese. Quanto aos demais problemas ambientais, entendemos que uma educação formal, séria e permanente, complementada por operadores preparados, contribuiria sobremaneira para sua solução. Parabéns professor, alegro-me por ter sido seu aluno.

  6. Roseli, 2 anos atrás

    Salve,
    Mario é bom ter você comentando nossos posts.
    Viu os elogios recebidos por sua ação contra o TAC do diesel?
    Roseli

  7. DIMARZIO GOMES, 2 anos atrás

    Lamentavelmente chegará um dia que o Brasil todo irá se tornar uma selva e veremos macacos em nossos quintais.

    Mais lamentável é que toda essa loucura em conservar já está virando religião no mundo todo e o Brasil será um campeão de fanáticos.

    Na realidade tudo isso é uma maneira de assegurar os recursos do mundo todo para os poderosos que regem a Nova Ordem Mundial, que por sua vez é a base para um Governo único que precisará ter controle de tudo para poder escravizar a humanidade quando o tempo apropriado chegar.

    A amazônia, através de certas ongs, já foi vítima fatal, e hoje seus recursos já foram tranferidos ao governo mundial, onde os proprietários de terras somente podem utilizar 20 por cento de suas terras e 80 por cento foi “confiscado” por este governo mundial com a ajuda de nossos governantes.

    Tudo em nome da conservação do meio-ambiente.

    Cada vez mais estão tomando as nossas propriedades com leis das mais esquisitas que se pode imaginar.

    As consequências virão, principalmente com o alto preço de produtos agro-pecuários e a culpa será nossa que permitimos que pessoas má intencionadas nos ditassem o que fazer com os nossos recursos.

  8. Daniel Corban, 9 mêss atrás

    Fiorillo, para mim, ainda é o principal nome do Direito Ambiental Brasileiro, malgrado a sua visão antropocêntrica que eu particularmente discordo. Mas entendo, e compreendo até certo limite, essa visão que põe a pessoa humana como destinatário final de todos os recursos, de todo o Direito, como expôs claramente o comentário acima do Mario Perrucci.
    Porém, discordo plenamente do comentário anterior feito pelo Dimarzio Gomes. Li sua ideia com extrema tristeza, perguntando-me a cada frase lida se realmente vivemos num mesmo planeta, num mesmo país, numa mesma realidade. Dizer “lamentavelmente chegará um dia que o Brasil todo irá se tornar uma selva e veremos macacos em nossos quintais” foi amargo até demais para que eu digira. Tomara que esteja certo, Dimarzio. Pois não creio que chegaremos um dia a desfrutar tais belezas que você diz ser lamentável. A visão que eu tenho é que a tendência mundial é chegar a uma cena parecida com aquele antigo desenho dos Jetsons, em que não vemos uma árvore sequer.
    De toda forma, como bem aponta Fiorillo, “O direito ambiental não se interpreta de maneira unilateral. Sempre tem o outro lado da moeda.” E concordo plenamente. Não descarto a importância que tem para a humanidade, não sou um fundamentalista tão drástico. Mas por o Meio Ambiente como unicamente destinado ao nosso prazer pode, acredito eu, dá margem a interpretações trágicas como a apontada pelo colega acima, Dimarzio,


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