Desafios do turismo sustentável no Brasil

em 26 September, 2010


A OMT (Organização Mundial do Turismo) escolheu 27 de setembro para festejar o dia mundial do Turismo. Segundo a OMT, o turismo tem papel fundamental na proteção da biodiversidade, cabendo ao setor a implementação de melhores práticas para evitar e minimizar os impactos negativos da atividade sobre a biodiversidade, além de promover os investimentos necessários em infra-estrutura ecológica.

 

Para aproveitar a data o Observatório Eco entrevista Bruno César Rodrigues Manhães, especialista no tema, para avaliar os rumos do turismo sustentável no Brasil.  

 

Bruno Manhães é formado em Turismo e Hotelaria, especialista em Educação e Mestre em Turismo Internacional pela Universidad de Las Palmas de Gran Canaria, Espanha. Além de professor convidado dos Cursos de Técnico em Turismo, Hotelaria e Lazer do SENAC SP.

 

Para o especialista, no Brasil, “há muito trabalho pela frente” para a implementação de um turismo ecologicamente correto. Afinal o sucesso deste processo depende basicamente em educar a população e todos os atores envolvidos na atividade turística, inclusive o próprio turista. “A conscientização leva gerações para se efetivar, não é de uma hora pra outra”, ressalta.

 

Manhães defende que “os interesses ecológicos têm de se sobrepor aos interesses econômicos, uma vez que, na maior parte das vezes, o processo de implantação da sustentabilidade no turismo gera resultados, mesmo os lucros econômicos, em longo prazo”.   

 

Embora seja uma tarefa árdua, os benefícios do turismo sustentável são enormes, por exemplo, a revalorização do entorno natural de um local com a aprovação de medidas de conservação e melhoria da qualidade ambiental. O especialista enfatiza que “a expectativa de aumentar o número de visitantes em uma região contribui para ampliar os esforços para a conservação ambiental e o planejamento ecologicamente sustentável”.   Veja a entrevista exclusiva que Bruno Manhães concedeu ao Observatório Eco.

 

 

 

Observatório Eco: Em sua opinião, de que forma podemos definir o turismo sustentável?

 

Bruno Manhães: Muito se fala em turismo sustentável e no planejamento e gestão focados na preservação ambiental. Mas, de fato, não se trata de uma tarefa simples planificar o turismo nos conceitos da sustentabilidade.

 

Há um consenso mundial que preconiza o planejamento do turismo baseado em quatro pilares: econômico, cultural, político e ambiental. Já o planejamento sustentável do turismo (ou ecoestratégias de desenvolvimento) apóia-se em seis dimensões – social, econômica, ecológica, espacial, cultural e política. Assim, percebemos que não é fácil planejar ou definir a sustentabilidade, uma vez que, cada pilar dessa construção se cruza com os interesses de outro.

 

Do ponto de vista do meio ambiente o planejamento deve ser concretizado com o mínimo de impactos negativos, com benefícios para o bem-estar da população atual e como garantia de melhores dias para as gerações futuras, além de entender que o meio ambiente deve ser um recurso gerenciado de forma que seja sustentável em longo prazo.

 

No Brasil contamos com o Programa de Certificação em Turismo Sustentável, iniciativa que estabelece parcerias entre as empresas do setor de turismo, governo federal, instituições organizadas da sociedade civil, municípios e comunidades, e o CBTS (Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável).

 

Observatório Eco: Quais são os impactos negativos do turismo no meio ambiente?

 

Bruno Manhães: Com a enorme incidência da atividade turística, há a necessidade de aumentar e instalar infra-estruturas adequadas à recepção do turismo. Construir os meios de hospedagens, restaurantes, saneamento básico, vias de acesso, locais de visitação, postos de informação, parques, atrativos artificiais, bases de observação, entre muitíssimas outras coisas. Em tempos passados, a preservação do meio ambiente não tinha lugar na composição de uma oferta turística.

 

Em função disso o turismo passou a ser demonizado pelos ecologistas, preservacionistas e conservacionistas, que viam nele o protagonista de tantas desventuras e infortúnios ambientais. Atualmente o título ainda é cogitado, entretanto, entre tantos Planos de Manejo, cálculos de Capacidade de Carga, Planificações Sustentáveis e Legislações vigentes, a associação passou a ser mais branda.

 

Por prejuízos ambientais podemos comentar sobre o óbvio aumento da geração de resíduos sólidos, da utilização e da necessidade de abastecimento de água potável, da demanda de energia elétrica e do tráfego de veículos (e a conseqüente redução da qualidade do ar), o assoreamento das costas, a contaminação da água dos rios e mares devido ao aumento de esgotos não tratados e a degradação da flora e fauna local em função dos desmatamentos, caça e pesca predatória.

 

Observatório Eco: Quais são os impactos positivos do turismo no meio ambiente?

 

Bruno Manhães: Já dentro dos benefícios é possível mencionar a revalorização do entorno natural com a aprovação de medidas de conservação e melhoria da qualidade ambiental.

 

A adoção de medidas para preservar o patrimônio da região, por exemplo, a criação de Parques Nacionais para proteger a fauna e a flora nativa e os espaços de beleza paisagística.

 

Há também o maior envolvimento da administração, ou seja, o turismo tem sido o responsável pela introdução de iniciativas de planejamento, com a finalidade de manter e controlar a qualidade ambiental, estimular a criação de áreas, programas e entidades governamentais e não-governamentais de proteção da fauna e da flora. Que fique claro: a expectativa de aumentar o número de visitantes contribui para ampliar os esforços para a conservação ambiental e o planejamento ecologicamente sustentável.

 

Observatório Eco: Quais os desafios do Brasil na implantação de um turismo que respeite a Natureza?

 

Bruno Manhães: Essa é uma questão complicada. Acredito que muitos países enfrentam os mesmos desafios, a grande diferença é que muitos já se encontram em um nível educacional e social avançado, e a preocupação com o meio ambiente é mais eminente.

 

O que quero dizer é que se pensarmos numa população que ainda sofre com a fome, qual é o grau de preocupação deles em relação à natureza e à sua preservação? Sendo sincero, se olharmos a pirâmide das necessidades humanas veremos que o fator ambiental não é prioridade; primeiro precisamos saciar as necessidades fisiológicas (e umas tantas outras) para depois passarmos a conscientizar as pessoas dos prejuízos que podem ser evitados ao meio natural.

 

No Brasil, temos esse problema. Como conscientizar as pessoas (muitas das quais não têm higiene, educação ou alimentação adequada) a preservar a natureza? Os dois problemas são graves, mas cada um tem seu grau de priorização. Implantar o turismo ecologicamente correto implica em educar a população e todos os atores envolvidos na atividade turística, inclusive o próprio turista. A conscientização leva gerações para se efetivar, não é de uma hora pra outra.

 

Ademais, os interesses ecológicos têm de se sobrepor aos interesses econômicos, uma vez que, na maior parte das vezes, o processo de implantação da sustentabilidade no turismo gera resultados, mesmo os lucros econômicos, em longo prazo. Em resumo, precisamos satisfazer as necessidades básicas da população, conscientizá-la da essencialidade da proteção ao meio natural, educar os envolvidos na atividade e aceitar que os benefícios virão em longo prazo. Definitivamente, há muito trabalho pela frente.

 

Observatório Eco: De que forma o turismo pode ser um instrumento de educação ambiental? 

 

Bruno Manhães: Acredito que a base para a educação ambiental é a conscientização. Quando digo conscientização me refiro a um sentimento racional, natural e sincero, e não aquele que fazemos somente quando estamos sendo observados. Conscientizar-se e desenvolver a educação ambiental é uma maneira de formar cidadãos conscientes de sua relação com a natureza e com seu hábitat.

 

A relação do turista com o ambiente no qual ele pratica o turismo é de sinceridade e, especialmente, de sensibilidade. O turista torna-se sensível e apegado ao meio, e acaba por protegê-lo por enxergar mais possibilidades de visitas. Além disso, as escolas podem e devem promover as viagens educativas, nas quais esses sentimentos são aflorados desde a infância.

 

O ato de viajar provoca a sinestesia e a liberdade para interpretar a natureza. Ao turista é permitido interpretar o meio ambiente, que revela seus significados livremente. Sempre digo que quando viajamos podemos ter experiências reais daquilo que só vemos nos livros. Isso, quando aplicado ao meio natural, é pura educação ambiental – e conscientização.

 

Observatório Eco: Quais as leis que regem o turismo sustentável no Brasil?

 

Bruno Manhães: É evidente que o turismo é parcela importante – e em algumas localidades, fundamental – para o processo de distribuição de riquezas. No Brasil tal fato começa a ser reconhecido frente ao peso político que a atividade vem recebendo.

 

No país temos como principal referência a Lei Geral do Turismo, e sua criação é um forte indicador da consolidação da atividade no cenário político, econômico e social brasileiro. A promulgação dessa Lei implica na formalização do turismo como atividade econômica e passa a disponibilizar conjuntos de normas e parâmetros (jurídicos e tributários) que, de fato, regulamentam a atividade e acabam por contribuir à constituição de um contexto sólido de negócios para todos os atores nela envolvidos.

 

A lei nº. 11.771, de 17 de Setembro de 2008, dispõe sobre a Política Nacional de Turismo, define as atribuições do Governo Federal no planejamento, no desenvolvimento e no estímulo ao setor turístico. Em seu artigo 1º nos esclarece e igualmente disciplina a prestação de serviços turísticos, o cadastro, a classificação e a fiscalização dos prestadores de serviços turísticos.

 

Dentro dos argumentos da preservação ambiental e da sustentabilidade, podemos encontrar na Lei Geral do Turismo algumas menções importantes, como por exemplo, em seu artigo 5º (referente aos objetivos da Política Nacional de Turismo) que ressalta, em seu inciso VIII, que a atividade deve propiciar a prática de turismo sustentável nas áreas naturais, promovendo a atividade como veículo de educação e interpretação ambiental e incentivando a adoção de condutas e práticas de mínimo impacto compatíveis com a conservação do meio ambiente natural.

 

Finalmente, ainda mencionando a Lei Geral do Turismo, em suas diretrizes sobre o PNT (Plano Nacional de Turismo), seu artigo 6º, inciso VI, adverte que é obrigatória a promoção da proteção ao meio ambiente, da biodiversidade e do patrimônio cultural de interesse turístico, além esclarecer que um dos objetivos do Sistema Nacional de Turismo é o de propor aos órgãos ambientais competentes a criação de unidades de conservação, considerando áreas de grande beleza cênica e interesse turístico.

 

Observatório Eco: Com a proximidade da temporada de verão, usualmente as praias e também o mar ficam mais poluídos, de que forma a atividade turística deveria lidar com essa situação, em sua opinião?

 

Bruno Manhães: No turismo discutimos esse grave problema há muito tempo. O turismo de sol e praia, normalmente, é um segmento massivo (aquele que leva grandes massas de turistas aos destinos), e que prejudica o meio ambiente, certamente. O que tem sido feito para amenizar tais impactos é calcular e aplicar a Capacidade de Carga (ou seja, quantos turistas o destino pode receber sem que sofra danos permanentes ao meio ambiente) e o próprio Plano de Manejo das Unidades de Conservação.

 

Em nosso caso, a oferta turística mais evidente é a de um país tropical com imensa costa litorânea e opções de lazer abundantes. Isso, realmente, atrai demanda turística – e com ela a poluição. Uma vez instituído o turismo sem planejamento ecologicamente sustentável no destino, em minha opinião fica difícil criar manobras para acabar com a poluição das águas.

 

Para minimizá-la, volto aos mesmos preceitos: as campanhas de conscientização. Somente quando a preocupação com o meio ambiente, seja do solo, do ar ou das águas tomar conta da cabeça do turista é que a coisa vai começar a funcionar. Proibir, acho difícil. Nenhum destino quer perder turistas. O que todos queremos é receber visitantes dispostos a proteger o verde, conservar os elementos culturais e criar laços afetivo-emocionais com aquilo que oferecemos. Isso sim é praticar turismo.




2 Comentarios

  1. Flávia Brandão, 11 anos atrás

    Nossa, muito interessante isso!!! Deveria ser passado em rede Nacional… Fantástico, JN… assim talvez o Brasil todo se conscientieze da importância do tema!! PARABÉNS AO ENTREVISTADO!

  2. Karen Christ, 11 anos atrás

    Bruno, como sempre arrazando…


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